"Alguns homens vêem as coisas como são,
e dizem 'Por quê?' Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo 'Por que
não ?'" George Bernard Shaw 1856-1950
Novamente
o artigo de fim de ano vai sair na edição perto do Natal. Natal é tempo de
amor, tempo de reconciliação, tempo de festas. Peço desculpas antecipadas a
todos por tratar neste espaço de coisas não tão solenes, mas a culpa é da
nossa jornalista que não me deu espaço suficiente no mês passado. De
qualquer maneira, Natal também é o mês em que a milhões de brasileiros
recebem o 13º salário e, alguns, até a gratificação de férias.. Claro que
nós médicos não fazemos parte desta imensa maioria e, aliás, nem poderíamos
fazer, já que somos classe diferenciada. Somos “autônomos”. Definição?
Decidimos nossos próprios horários, estabelecemos livremente, como deve ser
feito numa economia liberal, o valor de nossos próprios honorários e
“abrimos mão” de direitos mesquinhos como FGTS, férias, 13º. Temos vergonha
de falarmos para nossos clientes o quanto ganhamos, aceitamos um
congelamento de preços que é único e exclusivo no país, pois nenhum outro
preço está congelado no Brasil.Achamos que a medicina é um sacerdócio.
Aprendemos nas escolas médicas que devemos fazer o melhor e fazer o bem, não
importa quantonoscuste,
desde que os lucros fiquem com os outros. Afinal medicina e dinheiro não
combinam. Velhos, inválidos, vamos viver do selo médico.
Tristes
reflexões sobre a nossa profissão. A primeira do Brasil e até hoje não
regulamentada. Neste ano tive a oportunidade de entender melhor o jogo do
poder entre médicos e os que vivem da medicina. Sim, porque é um pouco
diferente. A maioria das pessoas que vivem bem da medicina não são médicos.
Enquanto defendem, apesar de não pagar nossa evolução, que sejamos “experts”
em medicina, eles estudam em seminários e pós-graduações como explorar o
trabalho médico, como “regulamentar” o “acesso excessivo” do paciente aos
serviços de saúde e agora, aí vem a última, como não pagar aos médicos por
serviços prestados, mas sim por indicadores de saúde conquistados. O ano de
2010 será o ano do “modelo falido”, o não pagamento por consulta, por
cirurgia, por internação. Já que não conseguem mais segurar a represa, que
eles mesmos construíram, vão mudar o modelo.
Prepare-se
colega para a nova modalidade de “medicina baseada em resultados”que
estão tentando trazer para o Brasil. Novidade? Absolutamente não. Já foi
tentado nos Estados Unidos e o resultado foi prejuízo absoluto para
pacientes e médicos e lucros absurdos para os que vivem da medicina.
E
nós? Podemos ser passivos, aceitar tudo como está e como virá. Podemos ser
ativos, dizer não, apoiarmos nossos colegas e entidades que estão nos
defendendo. Ou melhor ainda: Podemos ser vivos, não nos misturarmos com
estes incendiários também chamados de “encrenqueiros” que vivem reclamando
dos nossos ganhos, e esperarmos. Quando houver uma “greve” vamos ficar de
lado... Mas quando vier o aumento vamos nos aproveitar. Afinal somos médicos
todos iguais e merecemos receber o que os outros recebem.
Só
um desabafo final: Acho que você colega, que pensa que não devemos fazer
nada, você que não apóia nossos movimentos, você que não faz nada por nossa
profissão, deveria ser coerente. Quando, e se vier um aumento, diga NÃO!
Continue com seu consultório, com sua clínica, com seu hospital, imaculado
de reivindicações espúrias. Mas, por favor, continue recebendo os mesmos
valores de hoje.
Sérgio dos Passos Ramos
é Vice-Presidente da APM Regional São José dos Campos
Associação Paulista de Medicina - Regional
São José dos Campos
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