Podem as condutas médicas serem restritas pelo Sistema de Auditoria dos
Planos de Saúde ?
Luiz Fernando Pinheiro Franco*
O Superior Tribunal de Justiça foi claro:
O médico, e não o plano de saúde é quem decide o
tratamento do doente: 22/3/07
O Conselho Regional de Medicina de S. Paulo
foi claro:
O preço do tratamento a um paciente não deve ser
resolvido às custas da indicação terapêutica.
O Conselho Regional de Medicina de S. Paulo
foi claro:
O médico regularmente habilitado está apto a
indicar e proceder ao tratamento que julgar conveniente e é este de sua
responsabilidade.
O Incor de S. Paulo foi claro:
Quem sabe o que é melhor para o paciente é o
médico.
O Capítulo de S. Paulo da Academia Brasileira
de Neurocirurgia foi claro:
Hoje quem salva vidas é a Justiça!
Algumas
operadoras de planos de saúde ocupam posições destacadas no ranking das
melhores e mais rentáveis empresas do país, com o auxílio constante da ANS.
Pesquisa inédita do CRM/SP em maio 2007 informa que
mais da metade dos médicos paulistas atende pacientes, com total dependência
econômica, por meio dos planos de saúde.
Quase 50% destes sofreram ou sofrem algum tipo de
restrição ou imposição dos planos de saúde afetando sua autonomia, e dentre
estas restrições 42% foram descredenciados, sendo este tipo de perseguição
quase metade das denúncias no CRM.
Infelizmente os planos já têm suas próprias regras, bem
longe da boa prática médica, e bem perto de como se lucrar ao máximo dentro
da medicina como um negócio qualquer, somente, e ainda usurpando atribuições
que não são deles.
Se os planos querem o lucro máximo alguém fica com o
mínimo. Quem?... O médico e o
paciente; o médico hoje gastando pelo menos 2500,00 reais para manter a
atividade profissional (fonte CRM/SP), praticamente inviabilizou sua
profissão e o paciente sem o socorro da justiça encontra a sequela e a
morte.
Analisemos agora a chamada medicina baseada em
evidências utilizada como apoio para as decisões dos planos de saúde.
Qual é a ideia: revisões sistemáticas capazes de
interligar a experiência pessoal, não somente à melhor informação
disponível, mas à conduta mais racional aplicada a cada caso em particular.
Seria ótimo se fosse verdade.
Na realidade e na prática não é o que acontece, pois se
despreza a experiência pessoal e cada caso em particular, e esta
interpretação é o grande instrumento de economia utilizado pelos planos de
saúde, que querem aumentar seus lucros, à custa da saúde do paciente,
perseguição ao médico e paciente pela escravidão aos métodos que só visam o
lucro pelo bloqueio de novas técnicas e terapêuticas modernas.
O Sistema de Auditoria dos planos de saúde
sabidamente se apegam à velha medicina, recusando gastos com a nova
tecnologia e o progresso.
No Estado de S. Paulo atuam mais de 90 mil médicos:
desgraçado é o país que apresenta na mídia o ranking de meia dúzia de
"melhores médicos". É atestado de
pobreza intelectual de nossos formadores de opinião.
Esta é mais uma razão para que a grande maioria dos
"não melhores médicos" sofrerem restrições, já que suas condutas
podem livremente ser restritas, pois a mídia colaborando com os economistas,
autorizou uma minoria a ter o dom da sabedoria incontestável.
Por outro lado menos de 2% dos médicos do Estado
receberam nos últimos 7 anos qualquer tipo de punição. Isto mostra a imensa
qualidade ética, moral e profissional dos médicos no Estado, que sofrem as
restrições rotineiras e constantes dos planos de saúde
O que se quer na verdade é intimidar, aprisionar,
escravizar, humilhar e fazer o médico duvidar de sua própria honorabilidade,
em benefício dos lucros monumentais que auferem os planos de saúde. Além
disso jogam para o médico os processos que se multiplicam (150% nos últimos
10 anos), pois se o paciente acha que não teve o melhor tratamento, acha
logo quem é o culpado: o médico, que não o utilizou.
Assim pergunto: agindo dessa maneira podem
as condutas ser determinadas
pelo poder econômico?
Aproveitam-se de que a maioria dos médicos não cursou a
residência, da formação criminosa e deficitária por parte das novas
faculdades que visam, sem dúvida, o lucro, fazendo com que o número de
profissionais cresça muito mais do que a população necessita, para a alegria
dos planos de saúde que vão sempre em busca dos que não questionam, por
precisar do emprego de qualquer maneira.
Aqui as
condutas restritas pelo sistema de auditoria dos
planos de saúde encontram campo fértil e obediência cega. É o princípio de
quanto pior melhor.
Quer queiram ou não, as pesquisas mostram que os
médicos ainda gozam de grande credibilidade entre todas as profissões. Até
quando?
Alguns médicos têm formação incompleta, a grande
maioria jornada de trabalho excessiva, múltiplos empregos, péssimas
condições de trabalho e remuneração miserável e ainda são os grandes vilões
dos falsos problemas econômicos dos planos de saúde, e como eleitos vilões,
são perseguidos implacavelmente pelas auditorias financeiras.
Estas não economizam onde devem, e perseguem o elo mais
fraco da corrente: o médico
Ouse um médico se comportar como o sueco Peter Rost que
corajosamente denunciou como o preço dos remédios era absurdamente alto à
custa da manutenção de uma cascada de ganhos que estavam longe do correto,
beneficiando todo mundo menos o paciente.
"Mutatis mutandis"
é que querem hoje fazer com o médico.
Ao utilizar um necessário exame mais custoso,
medicamento ou material para um tratamento mais correto, os planos criticam
e perseguem médico que o solicitou, mas ninguém vai para cima do governo com
os escabrosos impostos sobre os materiais, dos hospitais que cobram
altíssimas taxas de comercialização, e dos fornecedores que tem grandes
lucros.
Vivemos o momento da alta tecnologia que tem grande
impacto no custo da assistência médica pública ou privada.
Hoje fala-se primeiro em custos e depois em qualidade.
A saída que se encontrou foi negar sistematicamente ao
médico a utilização da tecnologia de ponta decidido, não pelas sociedades de
especialistas, mas pelo gerente financeiro dos planos de saúde.
O gerente financeiro tem o poder de vida e de morte.
O médico consciente deve moralmente apresentar todas as
opções ao paciente, mesmo que custosas, e desde que existam legalmente no
Brasil. Se não o fizer corre também o risco de responsabilidade judicial.
Os "custos" dos planos são utilizados como chantagem:
ou você abaixa o custo a qualquer preço ou seus parcos honorários são
desintegrados.
Os custos são sempre maquiados para apresentar a falsa
penúria dos planos de saúde. É de se notar que se assim o fosse, as grandes
potências econômicas como, por exemplo, os bancos e as seguradoras já teriam
de há muito abandonado o negócio.
A auditoria realizada com fins comerciais não é uma
auditoria justa. Ela não vê que
quando não dá o tratamento adequado, para auferir mais lucro, está matando
ou aleijando o paciente, independente de qualquer outra coisa.
Haynes, editor da Evidence-Based Medicine diz: "A
evidência não toma decisões". Ela
dá alguma informação sobre as possibilidades do que pode acontecer. Quem
toma decisões sobre a saúde é o médico com a concordância do paciente.
Assim nunca o plano de saúde pode tomar uma decisão
absolutista, à distância e com pouco conhecimento da doença, do paciente e
sabidamente econômica.
Só com o interesse intenso decidido e forte das
sociedades de especialistas, isto pode ser corrigido.
Quem agradece é o paciente e o médico que também pode
errar, ou se precipitar, e para isto as sociedades de especialistas tem o
dever de orientá-lo, ajudá-lo e se for o caso puni-lo. Afinal quem
seguramente "nunca erra" são os economistas, financeiros, donos dos planos
de saúde, médicos ligados à estes planos na economia a qualquer custo, pois
para eles a vida humana é apenas um... detalhe.
Enquanto isto para a salvação da sociedade e da vida
humana o que se vê é que:
hoje quem salva vidas é a justiça.
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*Presidente
de Honra da Academia Brasileira de Neurocirurgia – Capítulo de S. Paulo.
Presidente da Academia de Medicina de S. Paulo (2004-2006). Prof. Tutor da
Universidade de Berlim (1995)