Porque eu ainda escrevo?
“Eu me permito dizer que, onde a
ética na política não é tudo, a política não é nada.” Carlos Ayres
Brito, ministro do STF
Já
virou rotina. Onde eu passo e encontro um colega ouço sempre um
comentário: Adorei o artigo do carimbo. Não sabia que você era
escritor. Não perco um número do Jornal do Médico. E, finalmente, o
Jornal do Médico agora é muito lido.
Mas o que leva um médico de 60
anos de idade, 36 de formado, a se tornar diretor de Defesa
Profissional da APM e a escrever? Pois bem vou lhes dizer, não é a
descrença, mas a fé na minha – nossa – profissão. Claro que este
cantinho poderia estar sendo ocupado com a memória de nossos colegas
que foram verdadeiros heróis da medicina joseense. Médicos que
escreveram história ao lutar contra a tuberculose, médicos que
acreditaram no futuro e acompanharam a instalação do CTA e da
Embraer, como o Dr. Ivan Teixeira, médicos que lançaram as bases
cirúrgicas como Florence, que além de médico ainda fundou a ETEP.
Mas... Consultas entre 28,60 e
30,00 na média, cesarianas a 208,00 reais, colegas médicos
legitimamente concursados sendo arrastados por plantões dominicais
em unidades de saúde simplesmente pelo delito de manifestar sua
opinião, manchetes diárias de morte, sofrimento e dor, não é a
medicina que eu – e a maioria dos leitores - sempre sonhou.
Mas a crise não é só da nossa
cidade. A medicina do SUS está na sua falência anunciada. Jornais
estampam diariamente a situação de calamidade que assola os
hospitais públicos em todo o país. Os hospitais universitários
federais, onde devia se ensinar medicina, amargam uma dívida de 450
milhões de reais e o Ministério da Educação já concorda em dizer que
esses hospitais não devem mais permanecer atrelados às
Universidades. No vale do Paraíba não há dia em que não apareça um
novo escândalo, uma nova desgraça. Nosso povo não merece isto.
Por sorte nossa, a população já
não nos condena mais pela medicina de má qualidade que está
recebendo. Já é patente que a população culpa a classe política pelo
descaso da saúde. (Folha de São Paulo, 2/09/2007). E estudos
recentes mostram que a população acha um absurdo o que os planos de
saúde pagam aos médicos! Ufa! Estamos deixando de ser os culpados! E
não sem tempo. Pois não se pode culpar os médicos pela situação de
saúde tanto pública como suplementar que aí está. Da mesma maneira
que não se pode culpar os advogados pela criminalidade do país.
Pois é colegas. Por isto que eu
com meus 60 anos ainda escrevo. Escrevo para manifestar minha
esperança e para que nós nestes breves momentos nos sintamos
médicos. Sou e sempre serei médico. Acredito na medicina. Medicina
que nasceu irmã da ética. Tanto que me permito parodiar o pensamento
que inicia este artigo:
Eu me permito dizer que, onde a
ética na medicina não é tudo, a medicina não é nada.
Sérgio dos Passos Ramos
Diretor de Defesa Profissional
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dos Campos