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As pessoas estão perdendo a fé nos médicos...
“We have
not lost faith, but we have transferred it from God to the medical
profession”
George Bernard Shaw (1856-1950)
Na primeira
metade do século passado, quando a medicina teve um crescimento
extraordinário firmando-se como ciência e arte de salvar e modificar as
vidas, Bernard Shaw escreveu que a humanidade não tinha perdido a fé, mas
sim a transferido de Deus para a profissão médica. De fato o que antes era
para nossos antepassados desígnios de Deus agora poderia se transformar em
cura pela mão dos médicos. Doenças fatais como a tuberculose, a varíola, a
poliomielite, eram controladas ou exterminadas graças às terapêuticas,
vacinas e atitudes médicas. Pessoas mortas por paradas cardíacas
ressuscitavam graças a massagens, medicamentos e cirurgias. A
inexorabilidade da morte, da doença e do sofrimento tinha, na arte médica,
uma nova perspectiva.
Mas no final do século passado e entrando no novo século, uma nova realidade
parece se agregar à prática médica. As pessoas começam a exigir dos médicos
mais do que a medicina é capaz de dar. Acostumadas a um mundo cada vez mais
tecnológico começam a perguntar o porquê da doença e exigir dos médicos que
os mesmos sejam mais que deuses. Parece que a imortalidade, a felicidade sem
dor e a vida sem doença é obrigação da medicina, mais ainda, dos médicos em
particular. E começa a descrença.
Um estudo publicado por Mark Schlesinger da Universidade de Yale em 2002
mostra que esta descrença tem como uma das raízes a percepção que os médicos
deixaram de ser altruístas e, ao fazer um diagnóstico e instituir uma
terapêutica pensam mais em dinheiro que em resultados tanto para si como
para o plano de saúde ou o governo para quem trabalham.
Isto me faz pensar sobre um outro axioma que 90% das despesas da medicina
nascem da caneta do médico e que os médicos deveriam estudar economia e
contabilidade na Universidade.
Vejamos como nós médicos pensamos quando somos pacientes. Quando procuramos
um colega médico para tratar de nossa saúde o que esperamos dele é que o
mesmo seja o mais ilustrado possível na arte da medicina e daquela
especialidade. Esperamos que ele nos ofereça o melhor possível em matéria de
diagnóstico e terapêutica. Esperamos que ele nos ofereça alternativas
válidas para métodos diagnósticos e terapêuticos, se não tivermos recursos
financeiros para realizar os que inicialmente nos ofereceu, mas não lhe
damos o direito de decidir por nós. Ou seja, cabe ao especialista dizer sua
hipótese diagnóstica, o plano de investigação e o plano de terapia, mas cabe
a nós, como clientes, decidir o que está nas nossas posses realizar.
Não conhecemos nenhum curso de economia ou de contabilidade que ensine aos
profissionais desta área anatomia, fisiologia e terapêutica humana. Mas
esperamos que estes profissionais possam nos assessorar quando tivermos que
fazer uma decisão difícil sobre a s nossas finanças, ou seja, esperamos que
eles sejam expertises na sua área e não em medicina. Da mesma maneira
esperamos que os médicos sejam expertises em medicina e não em economia e
finanças. E que nos apresentem todas as alternativas válidas e não as que
“achem” que estão ao nosso alcance.
Cabe aos cientistas médicos dizer o que é melhor para o paciente, cabe aos
cientistas econômicos dizer o que é exeqüível, mas não nos responsabilizem
por uma decisão que não é nossa.
Sérgio dos Passos Ramos
Diretor de Defesa Profissional
APM Regional SJCampos
Arquivo Artigos Medicos APM Regional Sao Jose dos Campos
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