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Artigo
Negativa de cobertura
Será que,
novamente, seremos nós médicos os que pagaremos o pato?
“A real tragédia
da vida é quando os homens têm medo da luz.”
Platão, 428 AC
Mês passado a mídia divulgou que a ANS, preocupada com a
demora dos usuários em marcar consulta para médicos especialistas, criará um
instrumento que permita ao usuário denunciar o plano de saúde que não
providenciar a referida consulta em um determinado tempo. Esta nova “arma”
da ANS chamar-se-á NIP, Notificação de Investigação Preliminar.
Por outro lado, operadoras de planos preocupadas com o
excesso de consultas pelos médicos também estão criando mecanismos para
“limitar” o acesso às centrais autorizadoras num determinado tempo, ou seja,
só autorizar uma consulta a cada x minutos, por exemplo.
No meio disto, nós, mais uma vez, seremos os únicos vilões
deste processo todo. Não tem vaga com o doutor? Culpa do Plano de Saúde?
Não! Do médico, claro. E, esperem colegas, a espada está pronta e afiada e
vai cair na nossa cabeça.
Já analisamos aqui uma das maiores causas de falta de vagas
nas nossas agendas: a falta dos pacientes aos horários marcados. Todos
sabemos que não existe regra que seja obedecida sem que haja uma punição
para o infrator. Atualmente o paciente não comparece e para quem fica o
prejuízo? Para o pato! O que fazem os patos para se defender? Fazem
“over-booking”, marcam quatro pacientes no lugar de duas, já que o “no-show”
chega, em algumas operadoras, perto de 50%. Outro fator a ponderar é o tempo
enorme entre a chegada da paciente ao consultório e a “autorização”. Planos
de saúde estão preocupados com isto? Rs rs rs diriam os jovens plugados de
hoje. Ao contrário, cada vez mais “artifícios” estão sendo criados em nome
da “segurança”. Colocar o dedo, apresentar carteira de identidade original,
tirar foto do usuário, apresentar carteirinha do plano novíssima já que as
com pouco uso não passam nos leitores. Tudo em nome da “criação de
dificuldade para o usuário” e, adivinhem quem será encarregado desta tarefa
extremamente antipática: o pato, novamente.
E o pato somos nós, médicos! É um absurdo de tal tamanho que
qualquer pessoa que lê estas linhas é capaz de reconhecer. Menos as
operadoras de saúde e a ANS. Médicos são profissionais altamente caros para
serem formados e treinados e atribuir a eles a responsabilidade de
identificar pacientes com a maioria de obstáculos possíveis criados pelas
operadoras, é um desperdício de dinheiro, tempo e capacidades. Ora, dirão os
oráculos, mas isto quem faz é a secretária do médico. Claro. Como eu disse
quem paga o pato seremos sempre nós. Computadores, leitores de dedos,
digitalizadores de imagens e assinaturas, computadores, banda larga,
impressoras, secretárias, tudo isto pago pelos patos.
Solução? Nesta edição há uma, projeto de lei, que diz que o
usuário pode procurar o médico que quiser e ser reembolsado pelo plano de
saúde. Excelente, atende aos interesses dos usuários, dos médicos, da
medicina, da saúde, da sociedade. Só não atende aos interesses de quem? Das
operadoras, claro!!! Como explicar para o usuário que o pingado com pão na
chapa custa 5,00 no mercado e a operadora só reembolsará cinquenta centavos?
Outra solução? Agendamentos e autorizações de consultas serão
feitas por centrais das operadoras. Chega ao médico e apresenta o cartão e
será atendido no horário! As centrais comprarão horário dos médicos e
pagarão por ele, utilizado ou não. Ah, dirão as operadoras, não temos
tecnologia para isto. Não? Ah, esqueci. Atualmente só existe a TO,
tecnologia do obstáculo, para usuários e patos.
Dr. Sérgio dos Passos Ramos, vice-presidente da APM São José dos Campos
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